Can't or Won't?











{30/08/2005}   Álvaro de Campos
"Lisbon revisited
 
Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.
 
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
 
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
 
Que mal fiz eu aos deuses todos?
 
Se têm a verdade, guardem-na!
 
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
 
Não me macem, por amor de Deus!
 
Queriam-me em casa, fútil, quotidiano e tributável?
QUeriam-me o contrário disso, o contrário de qualquer coisa?
Se fosse outra pessoa, fazia-lhes a todos, a vontade.
Assim como sou, tenham paciência!
Vão pro diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho pra o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
 
Não me peguem pelo braço!
Não gosto que me peguem pelo braço.Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho.
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!
 
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois do que me sinta.
 
Deixem-me em paz!Não tardo, que nunca tardo…
Enquanto tarda o Abismo e o Silêncio que estar sozinho!"


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

et cetera
%d bloggers like this: